Às margens do Lago dos Sonhos, vivia um homem ancião e sábio chamado Senhor Nuvem. Seu ofício era nobre e suave: ele era o Fazedor de Nevoeiros.
Todas as tardes, com seus dedos finos como a névoa da manhã, ele recolhia os “restos do dia” das crianças da vila.
— Restos do dia? — perguntou certa vez a menina Íris, de oito anos, que passava por ali agitada.
— São aquelas pontas de sentimentos que sobram — explicou ele, abrindo sua grande bolsa de linho. — Um pouquinho de frustração porque o castelo de areia desmoronou. Uma pontinha de ciúme do irmão. Um farelo de preocupação com a prova de amanhã. Tudo isso pesa no coração na hora de dormir.
Íris, que tinha levado um gol no futebol e brigado com sua melhor amiga, sentiu que seu coração estava cheio desses “restos”. Ela os entregou ao Senhor Nuvem.
— O que você faz com eles?
— Venha ver — ele a convidou.
No seu pequeno barco, eles remaram para o meio do lago calmo. Senhor Nuvem tirou os “restos” que Íris e outras crianças haviam dado e os jogou com cuidado na água.
— Observem — disse, estendendo as mãos.
Sob a luz da lua, algo mágico aconteceu. A frustração se dissolveu em fios de névoa prateada. A preocupação virou um vapor suave que beijou a superfície do lago. E a tristeza da briga transformou-se em um fino véu que dançava no ar.
— O nevoeiro não apaga nada — sussurrou o ancião. — Ele apenas embala e acalma, até que as coisas fiquem mais claras pela manhã.
Íris respirou fundo. O ar fresco e úmido entrou em seus pulmões, e com ele, uma calma profunda. De seu peito saiu um suspiro longo, e ela viu esse suspiro se juntar ao nevoeiro, leve e livre.
Ao voltar para casa, seu coração estava macio. O nevoeiro do lago envolveu sua casa como um cobertor de paz. Naquela noite, Íris dormiu profundamente e, em seu sonho, via a si mesma e sua amiga brincando num jardim coberto por um lindo e fresco orvalho.
Moral da História: Até os sentimentos difíceis podem ser transformados em algo suave e transitório, que nos ajuda a ver com clareza no dia seguinte